A comunicação nas “cidades invisíveis”

1545040_10204499823838087_8319246148771082352_nPensar na cidade e na comunicação exige desenvolver a educação do olhar sobre as múltiplas e multifacetadas interações a que a cidade enquanto espaço físico, político, econômico e social nos obriga voluntária ou involuntáriamente.

O presente texto procura refletir sobre alguns pormenores que relacionam a cidade com a comunicação e aos quais por vezes no nosso atarefado cotidiano, não atribuímos particular atenção. Para a abordagem da temática, tomaremos como referência o romance do escritor italiano Ítalo Calvino: “As Cidades Invisíveis”. A obra consiste num relatório imaginário da visita realizada no século XIII pelo mercador veneziano Marco Polo, aos domínios do imperador mongol Kublai Khan.
Marco Polo

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Kublai Khan

Kublai Khan

Uma abordagem da temática referida, não pode deixar de pensar a cidade enquanto lugar de comunicação onde se articulam as identidade dos seus habitantes, transeuntes, viajantes, migrantes, párias e expatriados, que vindo e indo, trocando informações, vivências, experiências e histórias, policromam o espaço urbano e deixam nele marcas indeléveis.
Considerando o relatório do perambular do mercador pelos domínios de Kublai Khan, podemos retirar elementos preciosos a propósito da relação da cidade e da comunicação.
A propósito da visita à cidade de Tamara, podemos considerar que na cidade a posição e a forma que os edifícios ocupam, é suficiente para indicar a sua função, independentemente de placas ou figuras.
Sé de Sobral

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Tomando essa referência, é possível entender na descrição da cidade de Zoe, que nas cidades onde todos os espaços apresentam a mesma forma, essa homogeneização e a inexistência de simbolismo, impossibilitam ao indivíduos se situar no espaço.
Favela do Rio de Janeiro

Favela do Rio de Janeiro

Quando o viajante chega a uma cidade, atendendo ao que foi descrito a propósito da visita a Hipácia, poderá precisa de conhecer uma nova linguagem e uma outra cultura, pois os sinais podem não corresponder aos códigos que conhecia.

Strange signals – The street-art of Clet Abraham

Strange signals – The street-art of Clet Abraham

A descrição da cidade de Olívia, permite compreender que sobre a cidade é possível identificar dois pontos de vista (um positivo e um negativo) e que mesmo quando se procura mostrar somente um dos lados, é possível deduzir o outro. Por exemplo, o progresso potencia a poluição e a redução da qualidade de vida dos habitantes.
Poluição em São Paulo

Poluição em São Paulo

Durante a sua missão, Marco Polo visitou cidades que intitulou como delgadas e partir do seu relatório é possível concluir que as mutações que ocorrem ao longo do tempo geram nas cidades o desejo de mudança, porém esse desejo pode ocasionar a sua transformação por completo, ocasionando a perca de suas raízes, ou pode acontecer até, que a própria cidade possa perante o seu impacto, cancelar esse processo de mudança.

 

Descaracterização do Centro Histórico
Patrimônio da Humanidade de São Luís – MA

Descaracterização do Centro Histórico Patrimônio da Humanidade de São Luís – MA

Movimento em São Paulo se manifesta a favor da construção de ciclovias
Da descrição do viajante é possível constatar também, que em algumas circunstâncias o nome da cidade se transformou na sua maior identidade, chegando a constituir o seu único patrimônio permanente.

O imperador teve também a oportunidade de ler no relatório que a população de mortos pode possuir, em algumas circunstâncias, uma cidade própria, sendo o convívio entre a cidade dos vivos e a cidade dos mortos considerada normal.

A partir da percepção que Ítalo Calvino desperta através da descrição de Marco Polo que adentrou o império de Kublai Khan, é possível considerar que o espaço da cidade apresenta uma semiótica singular, sendo preciso superar as aparências e mostrar que as múltiplas cidades descritas por Marco Polo, na realidade são somente uma, construída a partir de nossas memórias, relações e identificações.

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