Entrevista Cel. Adauto Bezerra

Eram cerca de 10h da manhã de uma sexta-feira, quando o Coronel Adauto Bezerra surgiu na antessala de seu escritório. Sorridente, ele recepcionou a equipe de reportagem da Revista LifeStyle e a conduziu a uma das salas. As vésperas de completar 90 anos, o ex-governador esbanja longevidade e simpatia. Antes de iniciar a entrevista, fez questão de fazer as suas próprias perguntas sobre Sobral. Terra natal de sua esposa, a Cidade foi palco de muitos momentos importantes na vida do Coronel.

por Raquel Scarano

Empresário, político, militar, pai, cearense de Juazeiro do Norte, José Adauto Bezerra reviveu, durante a entrevista, fatos que fizeram parte de sua trajetória.

Coronel, há muito na sua história, principalmente no período que antecedeu seu ingresso na política, que muitas pessoas desconhecem. Então, eu gostaria de começar nossa conversa falando um pouco dessa trajetória que já sei que é de muita superação. Como um menino de Juazeiro do Norte, de família simples, se tornou um dos homens públicos mais respeitados do Ceará?
Coronel Adauto: Eu nasci em Juazeiro do Norte, eu um Sítio chamado Salgadinho. Sou gêmeo com o Coronel Humberto Bezerra. Como éramos dois filhos, crescemos dividindo tudo, compartilhando tudo, sempre juntos. Quando chegamos em idade escolar, fomos estudar com uma professora que nos ensinou apenas as primeiras letras. Depois, fomos para uma escola, aprender a escrever de fato. Passamos por um grupo escolar chamado Padre Cícero. Com 14 anos, fizemos um exame de admissão para cursar o ginásio, já no Crato, pois em Juazeiro não tinha curso ginasial. Fomos aprovamos e ficamos na mesma sala. No 4º ano, nos transferimos para o Colégio Cearense, em Fortaleza. Fomos enfrentar as dificuldades de passar de um colégio de interior para um da Capital. Mas o meu pai nos deu uma advertência muito grande, que eu não esqueço nunca: “Vocês vão estudar no Colégio Cearense. Eu não tenho dinheiro para pagar, mas eu vou vender a última cabeça de gado pra que vocês estudem e não passem a vergonha de ter atrasado a mensalidade. Agora saibam de uma coisa, lá em Juazeiro não tem emprego pra vocês. Se não forem aprovados aqui, irão pro Amazonas tirar borracha”. Aquilo me doeu tanto mas foi uma lição. Então, Humberto e eu nos dedicamos dia e noite àquelas matérias que nunca tínhamos visto em Juazeiro e fomos aprovados. Em 1943, um grande amigo do meu pai nos avisou que haveria o concurso para a Escola Preparatória de Cadetes. Mais uma vez, nos dedicamos exclusivamente a estudar. Eram 340 candidatos e, por incrível que pareça, nós dois fomos aprovados. Foi a maior felicidade. Fomos pra Juazeiro dar a notícia. Tínhamos dado o primeiro passo para nossa carreira no Exército, tudo por conta da educação, foi assim que Humberto e eu construímos nossa história.

Esse esforço contou com uma grande colaboração dos seus pais, não é mesmo?
Coronel Adauto: Com certeza. Quando Humberto e eu chegamos a Juazeiro, aprovados para a a Escola de Cadetes, a primeira coisa que meu pai fez foi nos levar ao ‘café’, que era o lugar onde ele se reunia com os amigos. Quando chegamos lá ele disse: “Tá vendo o que é estudo? Foram aprovados para escola preparatória, vão fazer o curso e depois vão pro Rio de Janeiro”. Ele falava isso com uma satisfação tão grande. Nós sabíamos que ele estava feliz.
Meu pai foi a pessoa que mais contribuiu para nossa formação, pelo seu exemplo e pela sua visão.

Por falar em família, o quanto seu irmão gêmeo faz parte da sua vida?
Coronel Adauto: É um irmão querido para toda a minha vida. Sempre estivemos juntos. Não nascemos juntos por acaso, ele me acompanhou em todos os meus passos e hoje ainda andamos juntos.

O que lhe levou para a política? Houve um fato pontual, um acontecimento específico que lhe fez entrar para a vida pública?
Coronel Adauto: Na época, o Prefeito de Juazeiro era meu padrinho de batismo, primo do meu pai e muito amigo da família. Foi ele quem me convidou para me candidatar a deputado. Eu aceitei, rodei o Cariri inteiro fazendo campanha e fui eleito. Eleito como o mais bem votado da Região.

Além do seu pai, quem mais contribuiu para a sua história de vida?
Coronel Adauto: Depois do meu pai, foi o Exército, a quem eu devo tudo. O Exército me deu roupa, me deu calçado, me deu alimento, me deu professor, até me formar. Tudo foi o Exército. Eu jamais poderei esquecer. Nunca! Eu sou militar desde a origem até agora.

A região do Cariri é cheia de tradições e ícones religiosos. O Senhor é um homem religioso, como é sua relação com Deus?
Coronel Adauto: Algumas rotinas eu mantive durante toda a minha vida, até hoje. Ir à igreja é uma delas. Vou, faço minhas orações, comungo. Eu tenho muito a agradecer. Além da fé, eu tenho um vínculo diferenciado com a igreja católica. Tenho um grande amigo que é religioso, um dos melhores que já tive, chamado Frei Virgílio. Hoje ele tem 93 anos, ainda celebra, as vezes me liga e parece que nunca estivemos longe.

O Senhor é um homem vaidoso? De todos os seus feitos, por qual o Senhor gosta de ser lembrado?
Coronel Adauto: Algumas coisas me fazem sentir orgulho. Como legislador, eu já fui o deputado mais votado, fui o presidente da Assembleia Legislativa e construí o prédio onde funciona a AL. Quando eu assumi o Governo do Estado, Fortaleza não tinha esgotamento sanitário. Eu fiz o esgotamento sanitário da cidade, lancei a rede de esgoto, a estação coletiva e o emissário submarino. Tudo feito por mim.
Eu construiu três açudes: Pacoti, Jati e Gavião. Essa água que nós consumimos hoje vem desses três açudes, que são interligados.
Mas uma coisa eu fiz enquanto governador que quase fico sem dormir: levar luz elétrica para os subúrbios, para os bairros mais humildes, para os distritos, inclusive, lá em Sobral, para Aracatiaçu. Era a maior emoção, quando eu ia para um local e via tudo ser iluminado.

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