Cronologia de um obstinado

raimundoaragaoFrancisco Sadoc de Araújo tem persistência, talento e fé para realizar, com sucesso, tarefas gigantescas. A estrutura física pequena e a voz mansa não revelam a obstinação, a coragem e a força do seu intelecto. Quantas vezes ele deve ter mirado e sofrido diante daquele conjunto de prédios do antigo Seminário Diocesano, com seus imensos salões e corredores vazios, o mato invadindo os pátios? Quantos sonhos ao imaginar de que forma ele faria de novo, as vozes, o riso, o ruído de pisadas reverberarem naqueles espaços? Como veria faces jovens cheias de esperança, atiçadas pela descoberta de novos conhecimentos, circulando como ele as vira quando criança?
Rascunhou um projeto, colocou-o debaixo do braço, saiu à cata de parcerias e as encontrou. Deve ter orado a Santo Inácio de Loyola, criador da Pontifícia Universidade Católica de Roma, onde ele estudou durante quatro anos e foi ordenado sacerdote da Igreja Católica. Universidades antigas como Bolonha, Salamanca, Oxford são mais importantes para seus países e para o mundo do que suas próprias cidades. Não é exagero afirmar que o sonho do padre Sadoc se transformou na mais importante instituição fundada em Sobral nos últimos 50 anos, ou seja, a Universidade Estadual Vale do Acaraú.
SEGUNDA INCRÍVEL JORNADA
Outro feito hercúleo do padre Sadoc partiu da ideia de contar em detalhes, desde as primeiras horas, a história de Sobral. Durante 15 anos recorreu ao Barão de Studart, João Brígido, Raimundo Girão, dom José Tupinambá da Frota e a outros autores. Consultou publicações do Instituto do Estado do Ceará e diversos genealogistas. Esmiuçou velhos arquivos de assentos da Diocese de Sobral e da Câmara Municipal. Fez viagens a Recife e a cidades portuguesas para colher dados. Tudo isso munido de caneta e papel. Não contava com o computador e muito menos com monstro Google, na árdua missão. Desse trabalho resultou a obra Cronologia Sobralense com a qual, parte dos conterrâneos tem intimidade.
“O visitador Pe. Lino Gomes Correa, procedente de Almofala e Santa Cruz (Bela Cruz), chega à capela de Santana do Acaraú… De Santana do Acaraú dirigiu-se à capela de São José e depois chegou à fazenda Caiçara, onde pernoitou uma vez. Este pernoite foi decisivo para a História de Sobral… Admirado pela beleza natural da região, vendo o perfil azulado da serra da Meruoca ao poente e, ao nascente, o verde fértil das margens do Acaraú, contemplando a planície e as colinas circunvizinhas, resolve escolher o local para a fixação definitiva do Curato da Ribeira do Acaraú”.
O texto acima, página 188, volume I da Cronologia, narra a beleza da paisagem e traduz os sentimentos que levaram o padre Lino Correa, num sábado, dia 02 de junho de 1742, a definir a ribanceira do rio Acaraú como local onde seriam fincados os primeiros paus de sustentação da capela de Nossa Senhora da Conceição, embrião de Sobral.
Fatos relevantes iguais a este e outros corriqueiros como casamentos, nascimentos, mortes, festas, além de mostrar a origem e formação de muitas famílias, recheiam as 1.648 páginas distribuídas em cinco volumes, da epopeia sertaneja. Nela os heróis e anti-heróis são pessoas de verdade, com nome e sobrenome, que se organizaram para trabalhar, lutar, dividir alegrias ou lágrimas de tristeza durante os próximos séculos. Decidiram viver e morrer neste ponto do sertão.

NOVA EDIÇÃO
Ao fazer referência à mais valiosa fonte de consulta sobre o passado sobralense registro o oportuno relançamento recente, da obra do padre Sadoc. A primeira edição havia se esgotado há mais de duas décadas. A reprodução mantém integralmente as informações originais em papel de boa qualidade, com capa e diagramação mais aprimoradas. A iniciativa foi do Instituto ECOA, dirigido pelo artista plástico Roberto Galvão.
O detalhe preocupante é que a Cronologia parou no ano de 1.950. Já temos 66 anos de grandes acontecimentos a serem narrados, num momento em que os fatos ocorrem com rapidez nunca vista e as informações viajam na velocidade da luz. O padre Sadoc está, infelizmente, incapacitado por problemas de saúde. Sua última e incompleta batalha foi pela canonização do missionário sobralense José Maria Antonio Ibiapina, sobre o qual realizou extensa pesquisa e chegou a publicá-la em livro.
Temos, porém, bons historiadores e cabeças brilhantes que podem eternizar essa crônica iniciada em 1.604. Espero que, a qualquer momento, um desses ilustres abnegados – ou abnegadas – se apresente. Certamente terá decisivo apoio.

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